terça-feira, 1 de abril de 2014

Panamericano de MTB 2014 - Meu primeiro desafio minha quase vitória



Frio na barriga, medo e muitas incertezas, esses foram os sentimentos no começo do sábado que se passou. Quando o Kico me disse: “Minha linda nossa inscrição pro Panamericano de MTB já esta feita, pela primeira vez na vida fiquei com vontade de matar alguém.




Mas resolvi encarar, mesmo acreditando piamente que não conseguiria nem completar a prova,mas milagres também acontecem, podem acreditar nisso.

Na sexta feira depois de uma semana de recuperação pelo “terreno comprado”( gíria que os ciclistas usam quando alguém toma um tombo de bicicleta) no final de semana que antecedeu a competição, eu estava bem preocupada, afinal minha perna ainda não estava 100% recuperada  do tombo e eu não havia andando de bicicleta nenhum dia.

Que responsabilidade e que confiança depositada em mim, no sábado a tensão era enorme, colocamos nossas bikes no carro e fomos pra Barbacena, o clima estava propício pra competição, tempo nublado e fresco. Afinal de contas, nossa prova seria 12h30 horário cruel pra qualquer ser humano que se preze, mas São Pedro foi generoso e deixou um clima bem confortável pra todos.

Enquanto a hora não chegava íamos compartilhando do clima agradável que se espalhava pelo lugar, vários atletas de vários países, amadores, profissionais uma só tribo.
Eu precisava daquilo, daquele clima saudável depois de uma semana nada fácil, ali eu comecei a me reencontrar.

Encontrei a Maria Elisa uma pessoa e amiga incrível de Juiz de Fora que apesar do cansaço estampado no rosto, deixava transbordar a alegria pelo dever cumprido (com louvor, diga-se de passagem) a Med (apelido carinhoso dela) estava radiante, ela trabalhou na assessoria de imprensa e comunicação e sabe-se Deus por quantos perrengues não passou pra ver a coisa toda acontecendo.

Maria Elisa - Med

O importante é que aconteceu e foi maravilhoso tanto pra ela como pra todos que participaram do Pan.
Enquanto a hora fatal não chegava ,eu ia andando pelos bastidores com minha câmera registrando o making-of e nos meus clics e andanças conheci o Maurício Mazzei, um fotógrafo sensacional com um currículo invejável e ficamos trocando algumas figurinhas depois de termos perdido a largada do masculino.(risos)

 
Mauricio Mazzei

O Kico foi entrevistado pela Renata Falzoni um ícone da moçada da bike, ela é fotógrafa, vídeo repórter, bike repórter e cicloativista. Foi pioneira na valorização do uso da bicicleta no Brasil, tendo sido uma das fundadoras do Night Biker's Club do Brasil em 1989.O Kico não perdeu essa oportunidade e falou sobre vários assuntos, inclusive o lindo trabalho do mobilicidade JF que ele e o Guilherme vem desenvolvendo de maneira incrível em Juiz de Fora, modificando aos pouquinhos esse cenário da bike nos grandes centros urbanos.
 
Kico e Falzoi
A grande hora chegou, eu não conseguia segurar o nervosismo, mas descobri que isso é absolutamente normal antes de uma prova, foi só olhar para os lados e perceber que todos estavam como eu.
Quando a largada foi dada o sentimento era de pura emoção, tudo transbordava dentro de mim, um salto pro infinito, um vôo sem mapa de navegação.

Concentração antes da largada

Decidi que se não me concentrasse não seria fácil, então me desliguei de tudo, parei de ouvir os aplausos, os gritos, mas a última imagem que ficou comigo foi a da Maria Elisa (Med) gritando quando nos viu no meio da “manada”: “Vai meu amigo Kico Zaninetti, vai Leticia.”

Depois disso eu me desliguei totalmente, so ouvia a voz do Kico me dando as coordenadas de tudo, marchas, força,gira,gira, vai, ta lindo, ta maravilhoso minha linda, de camisa amarelinha (ele começou a  cantar kkkkk) , vai, so mais um degrau, isso minha linda, depois desse morro estaremos na metade da prova, força , gira,gira,issoooo minha linda, ta maravilhoso,água,banana grudada na boca inteira, descidas, cuidado,dor,dor,muita dor,câimbra, spray na panturrilha,gota de suor escorrendo no meu queixo, chão batido, pedrinhas soltas,pedronas soltas, pneu , cravo do pneu, copo de água, vai,vai, to meu limite Kico não consigo mais forçar, esse é o espírito minha linda.E quando eu vi o olhar do Kico me dizendo mesmo sem falar uma so palavra:”Consegue sim linda vem.”  Nessa hora que eu dei meu ultimo gás, nem sei onde encontrei forças mas encontrei, a outra dupla passou por nós, tentei encostar na menina da dupla, mas ela me ganhou na descida eu ainda não me sinto segura nas descidas.

Faltavam 5km pro final eu já não aguentava mais, ultrapassamos um outro competidor que sofria com as terríveis câimbras, oferecemos um spray pra aliviar mas ele não aceitou, preferiu continuar, respeitamos e não insistimos.Nessas horas cada um se testa a sua maneira, talvez aquele fosse o momento dele.
Quando avistei a tenda, só ouvi o Kico dizer:”Bora linda ta chegando gira, gira.” E foi o que fiz quando chegamos, só ouvi  uma pessoa dizer:”Dupla mista 11º lugar.

Já fiquei muito feliz quando ouvi isso, poxa 11º pra quem nunca competiu e ainda me recuperando de uma lesão, já abri um sorriso daqueles.

Mas o desgaste era terrível, os músculos se contraindo, a perna queimando de dor, mas uma dor que remetia prazer, um grande prazer pelo dever cumprido.

Foi então que ficamos sabendo que quase pegamos pódio, por muito pouco mesmo não ficamos entre os 10 primeiros colocados, ficamos a 24segundos da dupla 10ª colocada.



Eu vi o que move um atleta, não sei se conseguiria explicar, mas ali, naquela hora, com todas as partes do meu corpo gritando eu percebi que o que move o atleta é sim uma paixão que lhe é intrínseca, que é parte dele, que faz com que tudo se mova de uma maneira muito sutil, mas que é peculiar a cada um.
Uma conexão com o que há de melhor em cada um, um encontro marcado com a pessoa mais importante desse mundo...VOCÊ MESMO!!!

Deixar Barbacena pra trás doeu no coração, senti que, apesar do aprendizado maravilhoso sobre a transitoriedade e impermanência da vida, eu poderia fazer o que eu gostaria de fazer e o melhor, não me sentia apegada a esse sentimento. É difícil transpor em palavras, não sei explicar, exatamente, como me senti, acho que me senti livre, me senti como uma tempestade de verão: forte, intensa, sem limites.

Valeu demais, valeu Kico meu amor, meu treinador, trocar olhar com você no final da prova me trouxe a certeza de um amor bonito e acolhedor e valeu a todos os amigos que de forma direta e indireta me empurraram pro alto.


Pra cima....sempre!!!
Que venham os próximos!





quinta-feira, 27 de março de 2014

HENRIQUE futuro FERA da MTB



Começo a matéria de hoje com a frase dita por um amigo do pedal:

eh Letícia.. bacana o relato desse garoto mas no país do futebol infelizmente existe uma distância muito grande entre merecer um patrocínio e ter um.. enquanto um jogador de base ganha 5000 o ganhador do tour do brasil não chega nisso.. o q deixa a vitoria ainda mais saborosa.”

E quem é o garoto do comentário?
Pois bem vamos do início, no Domingo do dia 16/03 foi dia de pedal  leve, as  oito todo mundo no estacionamento do alphaville, uma golden retriever linda que havia chegado com uma senhora e um garoto me desviaram o olhar.

Sandy

 E a figura desse garoto me chamou atenção, numa scott 29 top andando de um lado pro outro, até então normal.

O padrinho do Pedal dos Amigos o Alexandre o chamou pelo nome, Henrique, gravem bem esse nome.
Pois bem, como o outro padrinho não pode ir e o Alexandre não sabia o caminho da trilha foi ele o Henrique que nos guiou.
Já me chamou muito atenção, foi quando no inicio do pedal ele disse:”Alexandre, vou na frente e espero vocês la em cima.”

Hã????
Minha gente, esse menino subiu feito um foguete o primeiro morro, um jatinho, eu cheguei um pouco depois dele e já sentindo a bendita dor que me acompanha todo inicio de pedal.

Fim do asfalto e inicio da trilha e eu pensei: “Ah agora quero ver ele pedalar na terra.”
 Todo mundo foi chegando e ele foi dizendo tudo sobre a trilha, a atenção que deveríamos ter nos trechos escorregadios e os momentos que deveríamos carregar as bikes.

Opa!!!Ja fiquei impressionada com a desenvoltura dele pra se comunicar com gente que era 17 anos (ou mais) mais velha do que ele.
Nesse momento comecei a ouvir comentários das meninas encantadas com o Henrique, que roubou  a cena daquele Domingo.

O Henrique não so pedala, como tem talento, muito talento pra coisa e desenvoltura total, uma intimidade que nunca vi ninguém próximo a mim ter com a magrela, ate os marmanjos com quem eu ando( sem desmerecer ninguém ta gente) não tem a intimidade que ele tem com a bicicleta.

Henrique Mansur - Gravem esse nome


Eu fui o tempo inteiro no vácuo dele, observando os saltos,a rapidez, a tranqüilidade pra descer lugares que eu não tive coragem.Bicicleta e menino como um só.

Ele parava, falava dos lugares, dava atenção a todos sem se gabar, e isso é uma coisa muito difícil de ver em meninos nessa idade.

Houve uma cena que eu tirei o chapéu pra ele, enquanto algumas meninas lutavam pra tentar passar as bikes por baixo da cerca, o Henrique observava de longe foi quando ele disse:
“Onde estão os rapazes pra ajudar as moças?”

Opaaaaaaaaaa...volta a fita, um menino de 14 anos com uma educação e senso desses não é comum não!
A trilha acabou e o Henrique se despediu de todos e onde estava a mãe dele?Dormindo debaixo de uma arvore.

Naquele momento eu vi que realmente por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher e essa mulher era a mãe do Henrique, que pacientemente esperava pelo filho.

E ele ainda me fez tirar uma foto dele com a mãe andando numa tandem, segundo ele pra mudar a foto de capa do face que estava horrível, nessa hora todo mundo caiu na gargalhada.

O que eu vi foi um futuro talento da equipe de Mtb, um talento que provavelmente quando atingir a maturidade vai estar nas equipes de elite do exterior, por que nosso pais valoriza bunda e  bola mas talento?Bem isso esta longe de ser valorizado infelizmente.

Pedi ao Henrique que me contasse um pouco da vida dele e num português claro e muito bem escrito ele me falou, um garoto que sabe o valor do dinheiro, que economizou a mesada pra comprar a bike dele, que de aniversário ele não ganha nada que os adolescentes da idade dele ganha, adivinhem o que ele ganha?Peças pra bike dele, e tem coisa melhor?

Já quebrou braço por que antes da Mtb ele fazia downhill pois é o garoto é de altíssimo nível já viram ne?
Foi obediente e a pedido da mãe parou com downhill mas foi pra MTB....(risos).

O recado que deixo pra você Henrique é que nunca, jamais em momento algum desista do caminho que você quer trilhar e que por sinal será um lindo caminho moldado de sucesso pode ter certeza.
A sua calma e sua responsabilidade mesmo sendo tão novo encantou 24 pessoas no pedal daquele Domingo, até os que ficaram distantes ficaram impressionados com você.

No pais do futebol ,o garoto da Mtb, FERA de 14 anos brilhou, voou na sua scott comprada segundo o mesmo com investimentos que ele fez.

No pais do futebol, da bunda e do funk, meninos talentosos como esse deveriam ser mais observados e valorizados.No seu relato ele fala com muito carinho da mãe que transcrevo abaixo pra vocês :
Nas competições ela fica na área de apoio me dando água, energético, levando e trazendo rodas,no sol escaldante me esperando passar.”

Sim o sucesso do Henrique vem da determinação, treino constante e da perseverança em se chegar no topo e podem ter certeza ele vai chegar.

Mas o sucesso dele vem também de uma família amorosa e presente, com seus problemas como qualquer outra família, mas ali, quando ele me falou sobre a mãe, eu vi que a força parte dele, por que ele nos passa isso o tempo todo, mas também, vem daquela pessoinha que vi naquele Domingo,esperando cheia de orgulho nos olhos do filhão que ela tem.Sim ela é o combustível dele e um combustível muito importante.

Parabéns a essa menina grande do pedal, pelo filho brilhante, inteligente, amoroso e talentoso que você tem.
Que o Henrique sirva de exemplo pra garotada que tem um sonho, que ele seja reconhecido por algum olheiro desses por ai e que a bike seja sempre um empurrão pro sucesso que com certeza virá pra vida dele.
E que os pais incentivem mais os filhos se notarem neles, talento não so para os esportes como qualquer outro campo.

Um dia eu ouvi um psicólogo dizendo: “Se seu filho tem dificuldade em Português, mas ama matemática, qual das duas matérias você irá incentivá-lo mais? “

A resposta é óbvia  incentive seu filho no que ele é bom, no que ele faz de melhor por que os resultados sempre apareceram, sempre e sempre ....

Parabéns Henrique e parabéns Denise mãezona sensacional!


Henrique e Denise - Mãe e Filho num so coração!!!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

3º Fórum Mundial da Bicicleta - Um Novo tempo

Recebi um convite do meu namorado Kico para participar do III Fórum Mundial da Bicicleta (FMB), que aconteceu em Curitiba na semana passada, nos dias 13 a 16 de Fevereiro na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e superou todas as minhas expectativas. Foi uma troca maravilhosa de experiências, trabalhos desenvolvidos entre as pessoas, histórias e buscas.

Eu sempre andei e gostei de bicicleta, mas sabia que poderia existir muito mais além do que o simples fato de andar ou da prática como esporte e sim eu estava certa. E o que me abriu os olhos foi a primeira ciclo viagem que fiz em Janeiro de 2013, exatamente a um ano atrás.

Mas o andar de bicicleta vai além e transcende o que nossa sociedade prega, talvez por que o ciclo ativista esteja às margens da sociedade (somos “marginais”), fora desse sistema imbecil que tenta e às vezes consegue nos oprimir dia após dia.

Foi a primeira vez que andei de avião, aliás, minto foi à segunda, por que da primeira vez eu saltei de paraquedas, pra que seguir a risca o que nos dita o senso comum não é mesmo?

Pois bem, a experiência foi interessante, a única coisa diferente foi o espaço (um teco, teco pra saltar de paraquedas mal cabem duas pessoas) lanchinho, velocidade e altura,oh céus!!Mas me senti criança ali, todo mundo se assustava quando eu dizia que nunca tinha andado de avião (ou quase nunca). Pronto gente incomodada podem ficar menos assustados agora eu não sou um ET afff. Nosso voo marcado para as 7h, nos fez acordar bem cedo e claro, fomos pedalando até o aeroporto da Pampulha de onde pegaríamos um ônibus para o aeroporto Internacional Tancredo Neves, vulgo Confins..(risos).

Tudo certo, embarcamos nossas bikes pela Azul, que inclusive merece todo nosso elogio, não criou problema algum, tivemos apenas que esvaziar os pneus tanto na ida, quanto na volta, nota 10 pra vocês!

Quando pousamos em solo Curitibano, o calor me surpreendeu e nossa carona já estava nos esperando, várias pessoas chegaram perto da gente perguntando se não tivemos problemas no embarque das nossas bikes,por que não tivemos que desmontar uma peça se quer das mesmas.

Se na Azul tudo foi “azul”, na GOL várias pessoas reclamaram que tiveram problemas e ladainhas no embarque das magrelas.Gente que nem conhecíamos  pediu pra tirar foto ao nosso lado, foi engraçado, me senti famosa por um segundo (risos).Ali o clima já estava maravilhoso.

Por ai se percebe que as pessoas que andam de bicicleta tem essa coisa bonita do tocar, do chegar perto sem medo, de dar um bom dia com o melhor sorriso no rosto. As atividades começaram assim que chegamos, deixamos nossas coisas na casa do Tio Kid (Tio do Kico que mora em Curitiba) e partimos pra UFPR.

Deu um trabalho danado montar a exposição do Nova Origem com o Kico (“O projeto Nova Origem surge como uma mudança no estilo de vida através da união de três amigos de infância em uma volta ao mundo de bicicleta*.”) ficamos a tarde toda por conta, mas o resultado foi fantástico,uma viagem no tempo e a felicidade pura,simples e verdadeira exposta em 100 fotos escolhidas a dedo e as pressas.

Exposição Nova Origem



À noite fomos pra um bar onde todo mundo se encontrou pra uma confraternização, uma verdadeira invasão de bicicletas na noite Curitibana. As ideias e pensamentos fervilhavam na minha cabeça.
Kico encontrou um amigo das antigas, o Andre Pedretti que se juntou a nós nessa confraternização e acabou nos dando carona pra casa do Tio Kid.

Uma graça o Tio e a Tia do Kico sabe aquela casa que tem cheiro de açúcar e as pessoas são tão amáveis e gentis que da vontade de colocar no coração e não largar nunca mais?São esses dois!

Cama quentinha, sorrisos que invadiam tudo, comida gostosa, uma cadelinha poliglota que me arrancou muitos risos, resumidamente essa é a casa do Tio Kid Zaninetti e seu olhar amoroso por debaixo daqueles óculos e Tia Glaucia e seu talento com os lindos bolos que ela faz pra vender junto com Tio Kid. Coisa mais bonita de se ver é um casal feliz e que se ama de verdade.





O segundo dia do fórum guardava certa ansiedade, afinal, seria o primeiro dia oficialmente da exposição Nova Origem. Tudo certo, tudo pronto hora de abrir as portas para o público.

Mas antes de chegar a sala destinada a exposição que nos deu uma trabalheira pra montar no dia anterior, o personagem que me fez mudar completamente a visão sobre a bicicleta estava ali, materializado na minha frente, Antonio Olinto  autor do Livro No Guidão da Liberdade e Rafa Asprino sua esposa.Fiquei realmente emocionada, confesso que por pouco quase chorei.Foi incrível estar ali frente a frente com o cara que largou toda a “segurança” dessa suposta vidinha medíocre que levamos dentro do sistema e se deixou levar pelo mundo e nele se encontrou e tem sido feliz...muito feliz!

Olinto e Kico

O Olinto e a Rafa são pessoas comuns, assim como eu ou como você que esta ai, me dando a honra de ler meu blog,mas são pessoas que se encontraram, que viram na bicicleta uma forma simples de se viver, de ser feliz, de deixar de ser número pra virar “SER”.

Foi mágico, estar ali com o professor (Olinto) e o aluno da estrada (Kico), não me cansava de olhar as fotos e via nos rosto de cada pessoa a surpresa, o medo, comentários, resenhas, foi  interessante vivenciar aquele momento, como fotógrafa tentei buscar toda pureza, toda surpresa e toda magia daquele instante.

Além do Olinto e da Rafa, a exposição recebeu a visita do Argus Caruso que também deu a volta ao mundo de bicicleta em 2001.

Cada pessoa que entrava na exposição tinha uma reação diferente, fiquei pensando no que elas pensavam o que sentiam vendo as fotos, até que um grupo da turma da limpeza da universidade entrou pra ver as fotos. Elas me pediram explicação por que o Kico estava ocupado na hora e não teve como recebe-las..

Fui contando com calma do que se tratava como surgiu a ideia e uma delas que eu sinceramente não me recordo do nome, disse pra companheira de trabalho: ”Ta vendo fulana, eu vivo dizendo que a gente não precisa de tanto.” Aquilo me emocionou profundamente, por que essa é a ideia, esse é o mundo real, mas as pessoas acreditam que estar as margens de uma sociedade doente é saudável. 

Enfim não estou aqui pra convencer ninguém do contrário, nem o que quero, mas queria que as pessoas entendessem que a felicidade não é mercadoria e sim seria o fim de todo capitalismo se todas as pessoas percebessem isso.

Nesse segundo dia o FMB teve um “Q de pura magia, foi um dia extremamente significativo, Chris Carlsson,ativista norte americano, fundador da Critical Mass (Massa Critica) e Renata Falzoni arrancaram aplausos e lágrimas de uma plateia enorme.A Renata é uma jornalista,ciclo ativista fantástica, usa a bicicleta a 38 anos como meio de transporte, ela não so fala da bicicleta como também vive a bicicleta, imaginem o que é pra essa sociedade coxinha ver uma pessoa chegando num restaurante desses chique que tem por ai montada na sua magrela,toda suada?Pois é, essa é a Renata e ela poderia estar no seu carro, mas preferiu a bicicleta e toda sua simplicidade, toda sua magia e toda sua força contrária ao sistema.

Ouvindo o que a Renata Falzoni falou sobre a bicicleta na sua vida, sobre o que o Chris disse com o olhar emocionado diante de toda aquela plateia eu cheguei a algumas conclusões.
Ser contrário ao que o capitalismo e o sistema pregam é ser considerado marginal, é ser mal sucedido na vida, nossos pais, a igreja, alguns professores nos ensinaram assim e muita gente nunca parou pra pensar no significado real dessa palavra... Marginal.

Mendigos, músicos de rua, mochileiros e tantos outros são considerados “marginais” eles não apresentam perigo pra sociedade além do perigo da subversão, além de mostrar pras pessoas, pro cara que se aposentou, que a vida dele é uma grande mentira, que ele poderia ter sido o que quisesse, feito o que bem entendesse, deixado a faculdade de lado, conhecido mil pessoas, experimentado todas as sensações, feito amor com aquela aventureira que mexeu profundamente com seu espírito e que morava dentro de um trailer.

Mas ele preferiu não desapontar o pai moralista (ou a mãe conservadora,perua e futil) e tentou a vida inteira ficar rico,e acabou pobre, sem ter conhecido nada do mundo, das várias culturas, da liberdade dessas amarras invisíveis e ficou ali vendo a vida passar assistindo Faustão e futebol  no velho sofá da sala.

Ouvindo o que a Renata dizia e a expressão do seu rosto, me fez acreditar que o que sempre pensei não era loucura, que meu pensamento como alguns diziam ser meio de Alice nos pais das maravilhas, sempre esteve correto e que sim, eu seguia exatamente o que meu coração sempre me pediu.
Fazer parte desta sociedade nos prende, nos oprime, nos deprime e nos torna miseráveis não de dinheiro, por que talvez quem esteja inserido dentro dessa loucura esteja ganhando muito dinheiro, mas esta na mais profunda miséria da real felicidade e tenta sem sucesso tapar os buracos existenciais deixados por essa busca ilusória.

Por que o sistema quer que acreditemos que um dia seremos felizes comprando uma Ferrari, viajando para praias no Caribe, que so existem nos nossos sonhos.Seria o fim dos capitalistas se todo mundo parasse de acreditar na felicidade como alguma coisa material, como mercadoria por que o sistema é uma fossa sem fim, que suga a vida das pessoas enchendo-as de esperanças tolas.

Joga fora toda essa propaganda que colocaram na sua cabeça elas nãos são reais, foram implantadas. Trocar de carro todo ano NÃO VAI TE FAZER FELIZ, seu filho não quer mais um computador com joguinhos de ultima geração, ele quer soltar papagaio e andar de bicicleta com você numa dessas tardes lindas de sábado. Sua esposa não precisa jantares caros, viagens de navio, ela precisa de uma boa noite de sexo, dessas que você de tanto trabalhar não consegue a muito tempo, nunca tem tempo por que acha que comprando aquela cobertura que o sistema vive te falando pela TV você a fará feliz.Sua esposa so precisa do seu amor e do seu pinto meu caro vai por mim!!

A felicidade esta no abandono o próprio Buda era um “marginal” o nosso maior ativista Jesus era um marginal vejam so.

Abandone o sistema, de as costas pra ele, seja de bicicleta, de moto, no seu fusquinha sei la, mas abandone por que ele já te abandonou a muito tempo.

O que nos torna pessoas não é ter um carrão, bens materiais (tão descartáveis) que você insiste em ter pra ficar feito um idiota vazio esfregando na cara do seu vizinho ou o número de mulheres que você pega pra ficar comendo ou o numero de caras que você com sua beleza plástica consegue arrancar suspiros. Essa é a porra da cultura do consumismo que consome de tudo, mas principalmente pessoas.

Seja você, esse você que fica gritando o tempo inteiro e que você diz:”Nossa eu to ficando doido.”Esse ai é você de verdade que grita o tempo inteiro te chamando pra felicidade, pra uma vida sem medo, pra uma vida de novas experiências, muito, muito, muito acima dessa cultura filha da puta de fracasso contra sucesso.Seja so você, seja feliz, faça o que você tem vontade de fazer.Sabe aquela vontade largar tudo e sumir?Faça, aquele ali é você que esta a muito tempo perdido dentro do sistema,dentro de você mesmo, dentro da bolha.

Eu me encontrei na bicicleta, que me proporciona estar mais em contato com o real, com a felicidade subversiva, por que sim a bicicleta nos proporciona isso.

Eu escolhi que eu posso chegar onde eu quiser usando como meio de transporte a bicicleta, que me proporciona momentos únicos, onde a comida depois de uma pedalada é mais valorizada seja um simples arroz com feijão, onde a água chega ser mais doce, onde o céu tem um tom que eu nunca tinha observado andando sob quatro rodas.

Para alguns quem anda de bicicleta é pobre, que bom é a pobreza mais preciosa que eu já tive por que foi nela que eu me encontrei e me descobri de maneiras que eu nunca havia imaginado.


Palestra do Kico e do Ernesto



Convide as pessoas pra um passeio de bicicleta ou a pé sei la, mas convide, saia da bolha, saia da sociedade carrocrata, da carro dependência.Convide seus vizinhos, convide as pessoas para o amor tão em baixa.Por que é isso que todos procuram no final das contas amor e por favor,amor no sentido mais amplo da palavra!

A bicicleta pra mim se tornou uma primavera constante, amores se formam no meio das massas criticas, pelas estradas, por cidades percorridas de bike durante ciclo viagens, crianças nascem, crescem,idosos renascem.Sim existe uma mudança em curso e ela esta apavorando o sistema por que chegará o momento em que o mundo vai perceber que não existe comida melhor no mundo que uma banana,uma paçoca e um melzinho.





Enquanto eu viajava de volta pra BH o Kico não soltava minha mão, a decolagem foi tranquila, o pouso mais ainda.Trocamos poucas palavras durante o voo,minha cabeça fervilhava pra escrever esse texto, as ideias não se conectavam...mas durante alguns minutos percebi que a única coisa que importava naquele momento era o encaixe perfeito das nossas mãos, unidas pela bicicleta durante uma ciclo viagem do Kico que mudou completamente a minha vida,por que me fez acordar pra coisas que sempre preguei e as quais sempre fui criticada e o pior eu acreditava nas críticas.

Não eu não adotei o estilo de vida dele pra mim, eu simplesmente fiz o meu e acredite, eu sou feliz por apenas acreditar, que em cima de uma bicicleta eu encontrei a fonte da felicidade em uma forma totalmente alternativa de se viver.

O FMB terminou e me deixou uma cicatriz perfeita, não tinha sorriso que não fosse sincero, não teve abraço que não foi aconchego, encontros e reencontros... Família, amor, sinceridade!
A sintonia perfeita de um evento que vai estar pra sempre na minha história, marcado como o grande dia da minha transição, o dia em que eu descobri que eu não quero provar nada pra ninguém, muito menos implantar “verdades” (até por que estas não existem) na cabeça das pessoas... Eu quero apenas que eu, você que todos sejamos felizes... Simples e puramente felizes.

Ainda consigo ouvir o som do coração do Kico batendo enquanto ele carinhosamente me deixava dormir no seu peito no trajeto de Confins ate a Pedro I, onde eu desceria e iria de bicicleta até a minha casa... As bikes sacolejavam no bagageiro e a vida explodia dentro do meu coração!


Dona Neotides, quero te ver pelas ruas de Medelin no próximo FMB em 2015 hein?

Até la